O câmbio do povo
Como a indústria levou para os carros básicos, como o Gol e o Palio,
o conforto de dirigir sem mudar marchas, até recentemente restrito
aos veículos top de linha

Carlos Rydlewski


Peça de engenharia que requer motores potentes para funcionar a contento e representa um custo médio de 5 000 reais no preço final de um carro, o câmbio automático sempre foi um item associado aos carrões de luxo. Neste ano, contudo, a experiência de dirigir sem ter de mudar as marchas manualmente tornou-se acessível aos brasileiros que podem comprar modelos apenas um degrau acima dos populares. E estima-se que, em menos de cinco anos, já será possível enfrentar o congestionamento das grandes cidades a bordo de carros 1.0 que também liberam o motorista do circuito infernal da "primeira/ponto morto". A tecnologia que tornou isso possível é a do câmbio semiautomático. Em termos muito genéricos, o que os engenheiros fizeram foi trabalhar sobre um sistema convencional de transmissão e acoplar a ele componentes eletrônicos e hidráulicos semelhantes aos que realizam as tarefas do câmbio automático – só que bem mais baratos. Um equipamento desse tipo representa, no preço final do veículo, um acréscimo de 2 500 reais. E ele traz benefícios ao consumo de combustível. Pode significar uma economia de até 5% em gasolina – ao passo que os carros automáticos consomem, em geral, 10% mais do que os de câmbio ma-nual.

Como é o caso de tantos outros equipamentos hoje presentes nos carros de passeio, o conceito do atual câmbio semiautomático nasceu nas pistas de Fórmula 1. Ele começou a ser desenvolvido para a equipe Ferrari, em 1987, pela Magneti Marelli, gigante italiano das peças automotivas. A estreia da tecnologia ocorreu na temporada de corridas de 1989, nas mãos do piloto Nigel Mansell. Em 1997, ela foi empregada pela primeira vez em um modelo superesportivo: a Ferrari F355. Em 2003, chegou às ruas da Europa em veículos comuns como o Renault Clio. No Brasil, o primeiro carro abaixo da categoria luxo a trazer o sistema foi o Meriva, da GM, no fim de 2007. Agora, o processo se acelerou. Somente no segundo semestre de 2009, foram lançados no país oito novos modelos com câmbio semiautomático, seis deles dentro da faixa de preço em torno de 35 000 a 45 000 reais. Esse é o caso, por exemplo, do Gol 1.6 I-Motion, da Volks, e do Palio ELX 1.8, da Fiat. Cada grande montadora dá um nome de fantasia ao seu câmbio semiautomático (veja o quadro). Enquanto a GM importa seus componentes da Alemanha, a Magneti Marelli produz as peças no Brasil para a Fiat e a Volks. Mas as diferenças são ínfimas.

A decisão de lançar mais carros com câmbio semiautomático no mercado brasileiro tem a ver com mudanças no padrão de consumo relacionadas à ascensão da classe C no Brasil. Uma pesquisa recém-concluída pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) constatou que o gasto médio na compra de um carro novo passou de 34 000 reais em 2008 para 37 800 reais em 2009. Ao encontrarem melhores condições de financiamento na compra de automóveis, com juros menores e prazos mais longos, algumas pessoas resolveram investir em modelos mais potentes, ou com mais opcionais. Para esse consumidor, o câmbio semiautomático pode ser um atrativo.

Não é o caso de pensar que as ruas brasileiras serão inundadas, do dia para a noite, por carros com mudança de marcha automática. A Magneti Marelli, que fabricou em 2008 apenas 15 000 câmbios semiautomáticos, programa para 2010 uma produção de 140 000 unidades. O crescimento é vistoso, de mais de 800%, mas os números absolutos são modestos quando se considera que ao longo de 2009 quase 3 milhões de carros novos terão sido emplacados. "O câmbio ainda não é prioritário para o motorista que está comprando o seu primeiro carro fora da faixa dos populares. Ele perde importância, por exemplo, diante de acessórios como o ar-condicionado, a direção hidráulica e o sistema elétrico de vidros, travas e alarmes", diz o engenheiro Carlos Henrique Ferreira, assessor técnico da Fiat. Há que levar em conta também um fator cultural: o motorista brasileiro gosta da sensação de "dominar a máquina" que a operação do câmbio e da embreagem proporciona. O câmbio semiautomático oferece, no máximo, uma versão muito diluída dessa experiência – a redução ou o aumento da marcha com um leve empurrão na alavanca (ou um toque num botão integrado ao volante em alguns modelos de carro). Ainda assim, a tendência é irreversível – e consultores do setor automotivo estimam que, em 2012, o primeiro 1.0 semiautomático já estará circulando no asfalto.

 

reportagem da revista veja editora ABRIL edição 2144 - ano 42 - nº51 23 de dezembro de 2009